A contratação pública, especialmente quando dirigida à obtenção de bens e serviços padronizados, habituou-se a ser pensada sob o signo da racionalidade declarativa, na qual a Administração Pública contratante define ex ante o objeto, impõe os requisitos esubmete o mercado ao jogo competitivo, cujo mérito consiste em selecionar, por critérios objetivos previamente fixados, a proposta economicamente mais vantajosa. Essa matriz, legalmente consagrada e indispensável ao cotidiano das aquisições públicas, revela, contudo, limites estruturais quando o Estado se desloca do terreno da contratação de bens e serviços comuns para a esfera da inovação. Dito de outra forma, para contratações em que a solução não se encontre plenamente disponível no mercado, o objeto se apresentará tecnicamente indeterminado em aspectos relevantes e o risco tornar-se-á componente constitutivo do contrato.
É precisamente nesse contexto que se impõe o repensar da função procedimental das contratações públicas. Em contratações complexas, notadamente aquelas voltadas ao desenvolvimento de novas tecnologias, o procedimento não pode ser reduzido a ritual de verificação formal. Este passa a operar como mecanismo de construção de conhecimento, apto a alinhar, sob parâmetros de isonomia e justificabilidade, as necessidades públicas complexas com as capacidades e potencialidades dispersas do mercado fornecedor. O diálogo competitivo emerge, nesse horizonte, como espécie de procedimento competitivo-negocial destinada a mitigar riscos e a enfrentar obstáculos formais. Dentre tais óbices, destacam-se: (i) a incapacidade de definir, com suficiência técnica, requisitos ótimos; (ii) a insuficiência de competências internas para avaliar o que o mercado oferece; (iii) dificuldades de dimensionamento dos custos de contratação; e (iv) eventuais restrições concorrenciais e regulatórias, a condicionar o desenho do contrato.
Portanto, o presente artigo tem por objetivo examinar o diálogo competitivo como técnica procedimental vocacionada à adjudicação de contratos de elevada complexidade tecnológica, explicitando sua racionalidade, suas fases e suas salvaguardas, situando-o no panorama comparado europeu e transatlântico. Sustenta-se, como premissa, que o incremento do diálogo com o mercado não representa delegação do planejamento nem renúncia à função diretora da Administração, mas como forma de planejamento adaptativo exigida pela própria natureza dos projetos de inovação.
Nesse sentido, a abertura dialógica não se traduz como sinônimo de informalidade. Muito ao contrário disso, reclama formalismo moderado, trilhas decisórias racionais e rastreáveis, proteção de informações sensíveis e disciplina rigorosa de igualdade de tratamento, sob pena de o método degradar-se em discricionariedade opaca ou em captura com vantagem competitiva indevida.
A exposição desenvolve, em sequência, (i) a justificativa funcional do instituto nas contratações de tecnologias, (ii) a descrição do procedimento em suas fases de seleção, diálogo e adjudicação, com ênfase nos limites de confidencialidade e de isonomia, e (iii) a discussão comparativa acerca da sua recepção na União Europeia — inclusive em sua interface com contratações de defesa — e das tensões constitucionais que condicionam qualquer pretensão de aproximação regulatória entre o modelo europeu e a lógica norte-americana de procedimentos competitivos negociais.
Clique aqui para ler o artigo na íntegra
Referências
ARROWSMITH, Sue; TREUMER, Steen (org.). Competitive dialogue in EU procurement. Cambridge: Cambridge University Press, 2012. Edição eletrônica.
BORDALO FAUSTINO, Paula. Award criteria in the new EU Directive on public procurement. Public Procurement Law Review, v. 3, 2014, p. 124.
BORDALO FAUSTINO, Paula. Public procurement award criteria in the EU member states: a comparative study of the discretionary powers of contracting authorities. 2017. Tese (Doutorado) – University of Nottingham, Nottingham, 2017.
CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de direito administrativo. 17. ed. Rio de Janeiro: Lúmen Juris, 2007.
DE MARS, Sylvia; OLIVIER, Frédérique. Competitive dialogue in France. In: ARROWSMITH, Sue; TREUMER, Steen (org.). Competitive dialogue in EU procurement. Cambridge: Cambridge University Press, 2012. Edição eletrônica.
EUROPEAN COMMISSION. Explanatory note – competitive dialogue – classic directive. 2005.
GUIMARãES, Edgar. Controle das licitações públicas. São Paulo: Dialética, 2002.
HOEZEN, Mieke; VAN RUTTEN, John; VOORDIJK, Hans; DEWULF, Geert. Towards better customized service-led contracts through the competitive dialogue procedure. Construction Management and Economics, v. 28, n. 11, 2010, p. 1177–1186. DOI: 10.1080/01446193.2010.506517.
HOEZEN, Mieke; VOORDIJK, Hans; DEWULF, Geert. Contracting dynamics in the competitive dialogue procedure. Built Environment Project and Asset Management, v. 2, n. 1, 2012, p. 6–24. DOI: 10.1108/20441241211235017.
JUSTEN FILHO, Marçal. Comentários à Lei de Licitações e Contratações Administrativas: Lei 14.133/2021. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2021.
KIRKBY, Mark. O diálogo concorrencial. In: GONçALVES, Pedro (org.). Estudos de contratação pública. v. 1. Coimbra: Coimbra Editora, 2008.
MARRARA, Thiago. O “diálogo competitivo” como modalidade licitatória e seus impactos. 2017. (Trabalho acadêmico) – Faculdade de Direito de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017. Disponível em: https://repositorio.usp.br/item/002902922. Acesso em: 4 fev. 2026.
MOREIRA, Egon Bockmann; GUIMARãES, Fernando Vernalha. Licitação pública: a Lei Geral de Licitação – LGL e o Regime Diferenciado de Contratação – RDC. São Paulo: Malheiros, 2012.
NASH JR., Ralph C.; CIBINIC JR., John; YUKINS, Christopher R.; CASTELLANO, Nathaniel E. Formation of government contracts. 5. ed. [s.l.]: Wolters Kluwer, 2023.
NATIONAL ARCHIVES AND RECORDS ADMINISTRATION (Estados Unidos). Code of Federal Regulations: displaying Title 48, up to date as of 9/11/2024. Title 48 amended 9/04/2024. Seção 15.201 (FAR 15.201). Disponível em: https://www.ecfr.gov/current/title-48/chapter-1/subchapter-C/part-15/ subpart-15.2/section-15.201. Acesso em: 4 fev. 2026.
NIEBUHR, Joel de Menezes. Licitação pública e contrato administrativo. 5. ed. rev. e ampl. Belo Horizonte: Fórum, 2022.
OFFICE OF GOVERNMENT COMMERCE; HM TREASURY (Reino Unido). OGC/HMT guidance on competitive dialogue. Norwich: UK Office of Government Commerce; UK HM Treasury, 2008.
OFFICE OF GOVERNMENT COMMERCE; HM TREASURY (Reino Unido). Competitive dialogue and competitive procedure with negotiation – guidance note. 2021. Disponível em: https://assets. publishing.service.gov.uk/media/60a388b7d3bf7f288b42370c/Competitive_dialogue_and_ competitive_procedure_with_negotiation_guidance_note_May_2021.pdf. Acesso em: 4 fev. 2026.
OLIVEIRA, Rafael Sérgio Lima de. O diálogo competitivo brasileiro. Belo Horizonte: Fórum, 2021.
REIS, Luciano Elias. Compras públicas inovadoras. Belo Horizonte: Fórum, 2022.
REISDORFER, Guilherme F. Dias. Diálogo competitivo: o regime da Lei nº 14.133/21 e suas aplicações às licitações de contratos de concessão e parcerias público-privadas. Belo Horizonte: Fórum, 2022.
STEINICKE, Michael. Public procurement and the negotiated procedure. European Competition Law Review, 2001.
TELLES, Pedro. Competitive dialogue in Portugal and Spain. 2011. Tese (Doutorado) – University of Nottingham, Nottingham, 2011.
TELLES, Pedro; BUTLER, Luke. Public procurement award procedures in Directive 2014/24/EU. In: LICHERE, François; CARANTA, Roberto; TREUMER, Steen (org.). Novelties in the 2014 Directive on Public Procurement. Copenhague: Djøf Publishing, 2014. Disponível em: https://ssrn.com/ abstract=2443438. Acesso em: 4 fev. 2026.
TRYBUS, Martin. Buying Defence and Security in Europe: the EU Defence and Security Procurement Directive in Context. Cambridge: Cambridge University Press, 2014.
UNIÃO EUROPEIA. Directive 2014/24/EU of the European Parliament and of the Council of 26 February 2014 on public procurement and repealing Directive 2004/18/EC. Official Journal of the European Union, v. 57, 2014, p. 65–143.
UNIÃO EUROPEIA. Directive 2014/25/EU of the European Parliament and of the Council. Official Journal of the European Union, 2014, p. 243–331.
R. WILKINSON/L. GEORGHIOU/J. CAVE/C. BOSCH/Y. CALOGHIROU/S. CORVERS/R. DALPÉ/J. EDLER/K. HORNBANGER/M. MABILE. Public procurement for research and innovation: developing procurement practices favourable to R&D and innovation. Expert Group Report EUR 21793, 2005.
YUKINS, Christopher R. Public procurement law: key international developments in 2014 – Part I: an American perspective on the new European public procurement directives. In: West Government Contracts Year in Review Conference Covering 2014. Thomson Reuters, 2015. (Conference briefs.)
YUKINS, Christopher R. The European Procurement Directives and the Transatlantic Trade & Investment Partnership (T-TIP): advancing US–European trade and cooperation in procurement. GW Law School Public Law and Legal Theory Paper n. 2014-15, 2014.
YUKINS, Christopher R. “The European Defence Procurement Directive: an American perspective”, The Government Contractor, vol. 51, n. 41, nov. 2009.

